É hoje que inicio uma espéc'e de rúbrica semanal, a Questão Fracturante da Semana. Embora tenha dúvidas se serei capaz/terei pachorra para dar continuidade à mesma de forma sistemática, ontem deparei-me com um debate muito interessante que realmente me dividiu; o assunto em questão chama-se, em inglês, 'artists resale rights' ou, no original francês 'droit de suite'. Não descobri ainda maneira melhor de dizer isto na língua de Camões para além de 'direito de sucessão', mas se algum de vocês souber, que tenha a bondade de me elucidar.
O direito de sucessão tem vindo a criar uma cisão entre os que, de alguma forma, estão envolvidos no comércio da arte, sejam eles galeristas, coleccionadores ou artistas. Em Portugal não me deparei ainda com nenhuma discussão, mas lembro-me do assunto surgir na cadeira de Art Business (cujo professor foi, possivelmente, a figura mais inspiradora do meu percurso académico, o mítico Henry Lydiate) e de recentemente me chamar a atenção no Art Newspaper.
E, without further ado, o droit de suite resume-se a quê? Primeiro, é preciso contextualizar a coisa: imagine-se, por exemplo, um situação em que o coleccionador X vai à galeria Y e compra um quadro do artista Z por 500 euros, numa altura em que ainda ninguém ouviu falar do artista Z. Numa situação deste género, o coleccionador X apenas compra o quadro de Z porque gosta dele, porque 500 euros é uma verdadeira pechincha. Se o coleccionador X comprasse com o intuito de vender no futuro, e com isso ganhar dinheiro, não o faria num artista completamente desconhecido.
Contudo, anos mais tarde e por alguma razão, o artista Z tem a sorte de ver a sua obra reconhecida pelas instituições e pelo mercado, o que faz com que um quadro seu deixe de valer 500 euros, passando a valer 100.000. O coleccionador X, que anos atrás comprou o quadro do artista X por 500 euros, decide vendê-lo, obtendo assim um lucro de 99.500 euros. É aqui se entra a questão do droit de suite: é legítimo o artista X ter direito a uma parte deste lucro?
A coisa bifurca-se, de grosso modo nas duas seguintes perspectivas: a do coleccionador e a do comerciante. O coleccionador pode argumentar que o droit de suite é uma violação da propriedade privada, que cada um tem o direito de alienar aquilo que é seu; que os artistas que se queixam de ficar de fora nesta escalada de preços são os que já são ricos, e que não estão a fazer mais do que barafustar com os coleccionadores que, anos antes de se tornarem famosos, apreciaram e apostaram no trabalho deles; que o droit de suite só se aplica a obras de arte acima de um certo valor, pelo que a ideia do artista pobre e explorado não encontra nisto uma solução; que o artista devia, na verdade, regozijar-se com o facto de o seu trabalho passar a valer muito mais do que valeu há tempos, pois significa que os próximos quadros que produzir serão muito mais valiosos do que tinham sido até então.
Do outro lado do ringue, o comerciante ou galerista vê a coisa de outra maneira. É mais provável que defenda a perspectiva de que é algo indecente que alguém obtenha lucros significativos graças ao trabalho de um artista vivo. A ausência deste tipo de legislação obriga a que as transacções sejam feitas de forma mais obscura e silenciosa, uma vez que não convém que se saiba quem compra e vende o quê. Quando se descobre (o mundo da arte é sensivelmente do tamanho de um penico), é o fim-do-mundo-em-cuecas. Convém muito mais ao galerista que haja droit de suite porque é ele o intermediário entre coleccionador e artista, e caso lhe fuja a boca para a verdade, quem sabe numa vernissage, depois de um copito de Ruinart a mais, tem as costas protegidas por uma legislação que o obriga a ser transparente.
Ora, eu ainda não escolhi de que lado estou. Parece-me que cada um dos intervenientes tem razões perfeitamente válidas do seu lado, já para não dizer que sou a favor do reconhecimento do artista quando o seu trabalho é valorizado no mercado. Sem o artista, o trabalho não existiria, logo, nem o galerista nem o coleccionador fariam dinheiro. Contudo, este irá beneficiar no futuro, se continuar a produzir e a fazer circular os seus quadros no mercado. Afinal, segundo o site ArtLaw (do prof. Lydiate), é apenas uma pequena porção que reverte para o artista; embora, se é uma pequena porção, o coleccionador não deveria oferecer tanta resistência na hora de abrir mão dela. Enfim, o que é pequeno e o que é grande?
A Inglaterra e o estado da Califórnia já aprovaram o direito de sucessão. Nova Iorque, por exemplo, está de fora. Which side of the fence are you on?
Monday, 9 August 2010
Friday, 6 August 2010
Mad Men - "It's toasted!"
Parece que já está no ar desde finais de 2008 e só agora, quase dois anos depois, é que descobri a proverbial pólvora.
Estou obcecada com isto por muitas razões, entre as quais, and in no particular order, os quadros no escritório da antiga agência de publicidade Sterling Cooper, o guarda-roupa das secretárias (que concerteza me fará bocejar de tédio na próxima vez que puser os pés na Zara), a interacção entre homens e mulheres, aqueles beijos intermináveis em que a interveniente feminina tem os lábios besuntados de baton vermelho e ainda assim não mancham a cara do masculino. Sugere ainda o tratamento dos cidadãos afro-americanos e, embora muito pouco, a questão da homossexualidade (que se ainda hoje é um bocadinho indigesta, na altura devia era um monstro multicéfalo. E depois, para além de tudo isto, há ainda a figura de Don Draper. Suspiro.
Primeiro, como disse, foram os quadros. Uma licenciatura, um mestrado e meio projecto de investigação de doutoramento não me qualificaram para identificar mais do que um belíssimo Mark Rothko, vermelho e amarelo, na sala do presidente da agência. A câmara passa por ele sem prestar muita atenção, sem o bajular, ainda que nos anos 60 Rothko fosse já um artista muito procurado, como sugere a encomenda do Seagram Building (desenhado por Mies van der Rohe), mais precisamente do seu chiquíssimo restaurante Four Seasons. Tirando o tal Rothko, há mais alguns quadros muito interessantes, todos com aquela composição abstracta 'all over', em que não se compreende limites de forma nenhuma, mas uma profusão de linhas a a preencher o plano pictório, muito ao jeito do pós-guerra americano. Uma delícia. (nota: ao que parece o mobiliário é uma espécie de best of do melhor design da época)
O próximo na lista é o guarda-roupa das secretárias; e por falar em secretárias, há a personagem Joan Halloway, toda ela lips, tits and hips. Hoje vestimo-nos mais ou menos livre e descomplexadamente, e mesmo sem discorrer sobre as conquistas do meu género no campo da paridade, e sem problematizar muito a questão, não consigo conter um certo fascínio pelo efeito que as roupas da época têm nos outros. Cinturas minúsculas, muito busto, ênfase nas ancas... e os ombros à vista, os tornozelos descobertos. Não sei se uma mini-saia é mais interessante, sinceramente. Não digo nada de novo ao referir aquela coisa do mistério, que é preciso tapar aqui e ali para deixar alguma margem para a imaginação e que revelar tudo de mão-beijada é meio caminho andado para que o interesse se esvaneça. O guarda-roupa desta série é o argumento mais forte que alguma vez vi a favor da relação proporcional entre imaginação e vestuário. E aquela Joan Halloway, tem uma silhueta de fazer corar uma cordilheira.
Embora poderosíssimas na forma como se apresentam, as mulheres são tratadas com um tipo de condescendência que, nos dias de hoje, é difícil de engolir. São chamadas de 'sweetheart', 'red' ou 'ginger', dependendo da cor do cabelo, ou simplesmente 'girl'. Poucas são as vezes em que se ouve um dos homens a chamar a secretária pelo nome. Um nome define-nos, certo? Eu sou a Ana, ou sou a Maria, ou a Sónia. Uma pessoa dirige-se a mim e trata-me pelo nome que me foi atribuído, como que um resumo da minha identidade, que é sempre um complexo conjunto de coisas. Mas ali, não. Ali a identidade das raparigas é uma coisa muito plana, muito reduzida: rapariga, ruiva, etc. É a mesma coisa do que chamar preto a alguém. É reduzir a identidade daquela pessoa a uma característica física sua, e assim negar-lhe a sua complexidade individual. Obviamente, escusado será dizer que não há exemplo de alguém (na série ou fora dela) tratar um homem por.. uh, homem. Ou loiro. Ou grisalho.
Há, contudo, a personagem de Peggy Olson, uma rapariga que começa por ser secretária mas que, por demonstrar uma inteligência excepcional (e graças à abertura do chefe Don Draper), acaba por se tornar uma enorme promessa no âmbito do copywriting, conquistando mesmo um estatuto igual ao dos seus colegas homens e o seu escritório pessoal. É a mais feiinha de todas; suponho que está aí um complexo por desconstruir.
Peggy, ainda que feiinha, ou menos deusa, porque é isso que as outras são, são umas deusas, elas todas, tem direito a alguma acção com o colega Pete Campbell e um ou outro estranho, entre outros. Pete Campbell é casado. Há MUITO, mas MUITO adultério nesta série. Eu não percebo nada de adultério e não tenho curiosidade, mas se tivesse, creio que estaria satisfeita por agora. O tal Don Draper (um McDreamy versão vintage, misterioso, bonito à moda antiga, um personagem complexo e profundo) tem uma mulher que é deslumbrante elevado a um bilião de infinitos, e ainda assim pula a cerca a cada rabo de saia com que se cruza. É preciso mencionar que ele tem bom olho e que as escolhe a dedo. Mas a que tem em casa é um assombro de mulher. Isto leva-nos à questão dos beijos sem borrar o baton. É das poucas vezes que me dou conta de que é só ficção (na vida real não há hipótese), porque de resto, é provavelmente a série mais absorvente que alguma vez vi.
Quando consigo descolar, dou-me conta que o mundo contemporâneo ganha numas coisas (coisas muito boas e muito importantes, note-se) e perde noutras. Ganha certamente na igualdade de género, o que não quer dizer que não haja mais nada por conquistar, nas questões raciais (idem), e nos preconceitos em geral. Por outro lado, perdeu-se um certo charme, perdeu-se uma forma de agir em detrimento da sede do imediato e da gratificação instantânea. Concedo que os argumentos que acabei de propor são pobres, mas de qualquer maneira, acredito mesmo que há aspectos nesta série que realmente oferecem uma nova perspectiva sobre o ano 2010.
Estou obcecada com isto por muitas razões, entre as quais, and in no particular order, os quadros no escritório da antiga agência de publicidade Sterling Cooper, o guarda-roupa das secretárias (que concerteza me fará bocejar de tédio na próxima vez que puser os pés na Zara), a interacção entre homens e mulheres, aqueles beijos intermináveis em que a interveniente feminina tem os lábios besuntados de baton vermelho e ainda assim não mancham a cara do masculino. Sugere ainda o tratamento dos cidadãos afro-americanos e, embora muito pouco, a questão da homossexualidade (que se ainda hoje é um bocadinho indigesta, na altura devia era um monstro multicéfalo. E depois, para além de tudo isto, há ainda a figura de Don Draper. Suspiro.
Primeiro, como disse, foram os quadros. Uma licenciatura, um mestrado e meio projecto de investigação de doutoramento não me qualificaram para identificar mais do que um belíssimo Mark Rothko, vermelho e amarelo, na sala do presidente da agência. A câmara passa por ele sem prestar muita atenção, sem o bajular, ainda que nos anos 60 Rothko fosse já um artista muito procurado, como sugere a encomenda do Seagram Building (desenhado por Mies van der Rohe), mais precisamente do seu chiquíssimo restaurante Four Seasons. Tirando o tal Rothko, há mais alguns quadros muito interessantes, todos com aquela composição abstracta 'all over', em que não se compreende limites de forma nenhuma, mas uma profusão de linhas a a preencher o plano pictório, muito ao jeito do pós-guerra americano. Uma delícia. (nota: ao que parece o mobiliário é uma espécie de best of do melhor design da época)
O próximo na lista é o guarda-roupa das secretárias; e por falar em secretárias, há a personagem Joan Halloway, toda ela lips, tits and hips. Hoje vestimo-nos mais ou menos livre e descomplexadamente, e mesmo sem discorrer sobre as conquistas do meu género no campo da paridade, e sem problematizar muito a questão, não consigo conter um certo fascínio pelo efeito que as roupas da época têm nos outros. Cinturas minúsculas, muito busto, ênfase nas ancas... e os ombros à vista, os tornozelos descobertos. Não sei se uma mini-saia é mais interessante, sinceramente. Não digo nada de novo ao referir aquela coisa do mistério, que é preciso tapar aqui e ali para deixar alguma margem para a imaginação e que revelar tudo de mão-beijada é meio caminho andado para que o interesse se esvaneça. O guarda-roupa desta série é o argumento mais forte que alguma vez vi a favor da relação proporcional entre imaginação e vestuário. E aquela Joan Halloway, tem uma silhueta de fazer corar uma cordilheira.
Embora poderosíssimas na forma como se apresentam, as mulheres são tratadas com um tipo de condescendência que, nos dias de hoje, é difícil de engolir. São chamadas de 'sweetheart', 'red' ou 'ginger', dependendo da cor do cabelo, ou simplesmente 'girl'. Poucas são as vezes em que se ouve um dos homens a chamar a secretária pelo nome. Um nome define-nos, certo? Eu sou a Ana, ou sou a Maria, ou a Sónia. Uma pessoa dirige-se a mim e trata-me pelo nome que me foi atribuído, como que um resumo da minha identidade, que é sempre um complexo conjunto de coisas. Mas ali, não. Ali a identidade das raparigas é uma coisa muito plana, muito reduzida: rapariga, ruiva, etc. É a mesma coisa do que chamar preto a alguém. É reduzir a identidade daquela pessoa a uma característica física sua, e assim negar-lhe a sua complexidade individual. Obviamente, escusado será dizer que não há exemplo de alguém (na série ou fora dela) tratar um homem por.. uh, homem. Ou loiro. Ou grisalho.
Há, contudo, a personagem de Peggy Olson, uma rapariga que começa por ser secretária mas que, por demonstrar uma inteligência excepcional (e graças à abertura do chefe Don Draper), acaba por se tornar uma enorme promessa no âmbito do copywriting, conquistando mesmo um estatuto igual ao dos seus colegas homens e o seu escritório pessoal. É a mais feiinha de todas; suponho que está aí um complexo por desconstruir.
Peggy, ainda que feiinha, ou menos deusa, porque é isso que as outras são, são umas deusas, elas todas, tem direito a alguma acção com o colega Pete Campbell e um ou outro estranho, entre outros. Pete Campbell é casado. Há MUITO, mas MUITO adultério nesta série. Eu não percebo nada de adultério e não tenho curiosidade, mas se tivesse, creio que estaria satisfeita por agora. O tal Don Draper (um McDreamy versão vintage, misterioso, bonito à moda antiga, um personagem complexo e profundo) tem uma mulher que é deslumbrante elevado a um bilião de infinitos, e ainda assim pula a cerca a cada rabo de saia com que se cruza. É preciso mencionar que ele tem bom olho e que as escolhe a dedo. Mas a que tem em casa é um assombro de mulher. Isto leva-nos à questão dos beijos sem borrar o baton. É das poucas vezes que me dou conta de que é só ficção (na vida real não há hipótese), porque de resto, é provavelmente a série mais absorvente que alguma vez vi.
Quando consigo descolar, dou-me conta que o mundo contemporâneo ganha numas coisas (coisas muito boas e muito importantes, note-se) e perde noutras. Ganha certamente na igualdade de género, o que não quer dizer que não haja mais nada por conquistar, nas questões raciais (idem), e nos preconceitos em geral. Por outro lado, perdeu-se um certo charme, perdeu-se uma forma de agir em detrimento da sede do imediato e da gratificação instantânea. Concedo que os argumentos que acabei de propor são pobres, mas de qualquer maneira, acredito mesmo que há aspectos nesta série que realmente oferecem uma nova perspectiva sobre o ano 2010.
Thursday, 29 July 2010
Ontem, lá me arrastei dolorosamente até aquele estabelecimento de tortura nas Amoreiras, vulgo ginásio, para mais uma sessão masoquista. Tudo seria horrendo se não fosse a televisão ligada na MTV que está mesmo em frente da passadeira em que inicio o meu ciclo de auto-flagelação. Ontem, enquanto corria e transpirava como um tourinho de médio porte, começa a dar uns desenhos animados que se chamam Drawn Together. Fixem este nome. É um pequeno portal mágico de absoluta felicidade.
A graça destes desenhos animados é uma só: politicamente incorrecto levado ao extremo - há de tudo, humor negro, estereótipos raciais, preconceitos associados com a sexualidade, ao excesso de peso, etc, e a verdade é que é absolutamente hilariante. E desenganem-se se acham que isto já é old news depois dos Simpsons, Southpark de Family Guy e American Dad, pois estas séries (embora ingualmente brilhantes) conseguem ser mais subtis na utilização do políticamente incorrecto. Drawn Together é só sobre isso e cada deixa de cada personagem serve apenas para sublimar isso mesmo. As personagens vivem numa casa tipo Big Brother e não há nada que lhes saia da boca que não seja obsceno. Como eu não sou uma comentadora de televisão genial como o Charlie Brooker (Mr. Brooker, me love you long time), o melhor é verem por vocês mesmos. Não me agradeçam, que não é preciso:
http://fliiby.com/file/117361/r3p8rgilgc.html
A graça destes desenhos animados é uma só: politicamente incorrecto levado ao extremo - há de tudo, humor negro, estereótipos raciais, preconceitos associados com a sexualidade, ao excesso de peso, etc, e a verdade é que é absolutamente hilariante. E desenganem-se se acham que isto já é old news depois dos Simpsons, Southpark de Family Guy e American Dad, pois estas séries (embora ingualmente brilhantes) conseguem ser mais subtis na utilização do políticamente incorrecto. Drawn Together é só sobre isso e cada deixa de cada personagem serve apenas para sublimar isso mesmo. As personagens vivem numa casa tipo Big Brother e não há nada que lhes saia da boca que não seja obsceno. Como eu não sou uma comentadora de televisão genial como o Charlie Brooker (Mr. Brooker, me love you long time), o melhor é verem por vocês mesmos. Não me agradeçam, que não é preciso:
http://fliiby.com/file/117361/r3p8rgilgc.html
Wednesday, 28 July 2010
Monday, 19 July 2010
Nos últimos dias, uma série de coisas sem qualquer relação entre elas; abri, pela primeira vez, um livro do Fernando Namora (um do Círculo de Leitores de 1975 que o meu pai deixou ficar para trás quando levou a colecção com ele), iniciei sem grande brio o projecto de investigação para o doutoramento (se é que mo aprovam...), fui a uma praia tão apinhada de gente que o senhor que chegou mais tarde só arranjou lugar para se deitar mesmo à minha frente, sendo que se se esticasse mesmo acabaria por me enfiar o pé pela boca dentro. A maneira ideal de nos recordarmos daquela aversão insuportável que só a proximidade física com um estranho provoca.
O calor persiste. Os dias fundem-se uns nos outros, derretem-se entropicamente. Agora é dia, logo é de noite, depois é dia e é sempre assim, uma coisa arrítmica. O sábado é igual à terça-feira, e o domingo, se uma pessoa não abre a pestana, passa insuspeito por uma quinta-feira. Instalou-se a desordem e não há maestro que marque o compasso.
Friday, 2 July 2010
O Calor de Lisboa
É imenso. É tal que, mal cheguei a casa, larguei o vestido como as cobras largam pele inteira. Adoro este calor infernal, por mim era assim todos os dias do ano.
Thursday, 1 July 2010
Hotel Rwanda/A Moda do Africanismo/O Fetiche do Exótico
Tenho noção do quanto este título está infinitamente para além do pouco que sei, mas enquanto via o Hotel Rwanda (um filme que já não é novidade nenhuma) surgiram-me algumas questões que gostava de expor aqui. Este é um filme que, em certa medida, é duro de ver. Embora tenhamos a clara percepção de que não passa de uma dramatização, há sempre algo subjacente ao logo do filme que nos sugere que os factos foram mil vezes mais terríveis do que alguma vez seria possível transparecer numa mera representação.
Para quem o terrível genocídio de 1994 passou ao lado (como a mim própria, que tinha na altura 9 anos), a história é mais ou menos esta:
O Ruanda é um país africano, cercado geograficamente pela Tanzania, Burundi, Uganda e pelo Congo. Foi inicialmente colonizado pela Alemanha e, mais tarde, por alturas da primeira guerra mundial, viu a sua soberania ser transferida para a Bélgica. Se os alemães foram pouco interventivos, os belgas envolveram-se mais afincadamente em aspectos como a saúde, educação e agricultura. Socialmente, vincaram severamente as diferenças entre duas supostas tribos, Hutus e Tutsis; digo 'supostas' porque só há milhares de anos atrás se poderiam discernir estes diferentes grupos de gente que, entretanto, se foi misturando num só. Isto significa que quando a soberania belga decidiu emitir documentos de identificação para a população, discernindo quem era Tutsi e quem era Hutu, o fez de uma forma completamente arbitrária: os mais altos, de pele mais clara e de nariz mais estreito eram Tutsis e os mais baixos, de pele mais escura e nariz mais largo eram Hutus.
Ou seja: o branco europeu chega lá, inventa um critério, separa um povo que se mesclou durante milénios, e dá preferência a um deles (os Tutsis, que já tinham sido beneficiados anteriormente pelos alemães), ou seja, segrega-os e antagoniza-os. Dividir para reinar, sem tirar nem pôr.
Com o crescente poder conferido às elites Tutsi, estas começam a desejar a independência da Bélgica, algo que, como aconteceu mais tarde com países como Angola e Moçambique, chamou a atenção do bloco Comunista, merecendo-lhe o seu apoio. Descontentes com este cenário, os Belgas resolvem então virar a proverbial casaca e começam a favorecer os Hutus, a suposta etnia até então preterida. Isto resulta numa vaga de violência anti-Tutsi - só assim, porque a Bélgica se livra de um conflito independentista virando o jogo para um conflito étnico e prolongando, assim, o seu domínio colonial.
A história continua, obviamente, mas para onde quero chegar basta ficar por aqui. Interessa-me muito a noção de colonização, ainda que seja um assunto com longas e portentosas barbas. Que raio de mania tem o homem branco ocidental, que chega a África, assenta arraial, e se acha com poder de decretar regras a povos nativos. Como é que isto foi sistematicamente possível?? Quem souber que me diga, por favor. Só me ocorre a possibilidade da força bélica, superior às armas comparativamente mais simples e menos letais dos nativos, pelo menos até à Russia se interessar e inundar aquilo de kalashnikovs. Mas, como dizia, é incompreensível como é que os europeus se safaram nesta apropriação sistemática de territórios alheios e lá se instalaram, literalmente, de armas e bagagens. As armas são mesmo uma merda; o poder de tirar a vida a outra pessoa parece ser, realmente, supremo. Faz lembrar o Ensaio Sobre a Cegueira, em que, quando um dos grupos de cegos se apodera de uma arma, imediatamente adquire o poder de obter tudo o que considera de valor do outro grupo: sexo, objectos pessoais e dinheiro. Enfim, é perverso demais.
Por falar em perverso, há ainda a questão 'étnica'. Esta porcaria deste critério de classificação de pessoas NUNCA trouxe nada de bom. Quanto muito, trouxe sérias vantagens a esse chico-esperto que se lembrou de classificar - olá, homem branco ocidental, é de ti que falo! O homem branco, o classificador, foi esperto quando teve a ideia de classificar porque criou a noção do Outro. E o que é que isto quer dizer? É mais ou menos simples. Suponhamos que chamamos besta a um tipo, certo? Com isto, fazemos duas coisas: definimos esse gajo como uma besta e, ao mesmo tempo, demarcamo-nos desse conceito, ou seja, ele é uma besta, ao contrário de mim, que não sou, até sou uma tipa à maneira. O mesmo se passa com o classificador, o homem branco ocidental: encontra pretos, amarelos, vermelhos; entre os pretos, vê uns mais altos, uns mais baixos, uns mais gordos e uns mais magros, e assim, o classificador classifica o que vê, isentando-se a si próprio de classe, pois o seu papel é neutro, é o de classificador. Se acham que o que acabei de dizer é um disparate de todo o tamanho, só tenho uma coisa a dizer sobre isso: chamar preto a alguém é insulto, e chamar branco a um gajo é uma perda de tempo.
O fim da picada, o cúmulo desta porra toda é o homem branco ocidental instrumentalizar essa classificação (como se fôssemos detentores de algum estatuto divino) para submeter povos aos seus interesses. Para segregar gente e criar conflitos entre ela; enfim, entretê-los a matar-se uns aos outros enquanto o colonizador aproveita a distracção causada pelas tensões internas para se instalar sem grande oposição dos nativos. Até que o povo arrebita e a coisa se agrava, como no massacre de 1994 no Ruanda e os belgas zarpam dali à força toda, sacudindo as mãos como quem diz 'o nosso trabalho aqui está feito, está na hora de ir para a nossa civilizada casinha!' Enfim, é demais!!
Hoje em dia, contudo, já não há colonização, certo? Há, já se sabe, o pós-colonialismo, em que já não se trata de açambarcar território geográfico (agora já não fixe dizer que 'Portugal é uma única nação, do Minho a Timor'), mas sim de explorar países africanos no sentido de obter o máximo proveito dos seus recursos naturais, para que as grandes multinacionais possam crescer e aumentar exponencialmente os seus lucros, isto graças a parcerias com as elites africanas, que alinham neste esquema perverso que favorece os interesses estrangeiros em detrimento dos interesses internos. Mas não era disso que eu queria falar a seguir. Creio que é perceptível o tom de auto-acusação neste meu post. Tudo isto a mim me parece vergonhoso. Lembro-me perfeitamente de, no primeiro ciclo, aprender sobre o passado imperialista de Portugal, e do tom carregado de orgulho da professora a mostrar-nos no mapa onde tínhamos chegado. E lembro-me de ter pena de como Portugal se tornara outra vez pequenino no meu tempo, quando antes o país tinha sido tão grande e se espalhava pelo mundo fora. E eu achava que naquela altura, Portugal devia ser mais forte e mais importante do que a Espanha e até do que a França.
Quando eu era pequena, ainda se glorificava esta barbárie que foi a colonização. E passaram-se muitos, demasiados anos até eu ouvir, pela primeira vez, uma voz crítica que falasse do direito de auto-determinação dos povos. - nota: "A autodeterminação dos povos é o princípio que garante a todo povo de um país o direito de se autogovernar, tomar suas escolhas sem intervenção externa, ou seja, o direito à Soberania. de um determinado povo de determinar seu próprio status político. Em outras palavras, seria o direito que o povo de determinado país tem de escolher como será legitimado o direito interno sem influência de qualquer outro país." - E que me mostrasse que, até então, nós, os portugueses (e se calhar outros europeus com passado colonial) nos comportávamos como fedelhos armados ao pingarelho, que comparam a importância do seu país pela extensão do seu território ultramarino como quem mede pilinhas. Por mim, os espanhóis e os franceses e os belgas e os ingleses que levassem a porra da bicicleta.
Acho que são atitudes apologéticas e até algo complexadas como a minha que, possivelmente, justificam, em certa medida, esta moda africanista que se vê por aí. É nestas alturas que gosto de recorrer à cultura de massas (afinal de contas, é de moda que falamos), tipo, assim por alto, a Rihanna, mais especificamente no videoclip da música 'Rude Boy'. É vê-la, natural de Barbados, vestida de padrão de zebra contra uma parede a fazer lembrar os rabiscos primitivistas de Keith Haring, cara coberta por pinturas quase tribais e colares de contas coloridas, toda ela um eco do imaginário exótico em que reflectimos as nossas impressões da cultura africana, em algumas partes já mesclada com nuances mais urbanas:
Ou mesmo, e já que falamos de moda, este exemplo de uma colecção decente da uber-chique Louis Vuitton, cheia de leopardo e contas coloridas:
Ou, ainda, em toda esta colecção recente de Dries van Noten (se nunca ouviu falar, é porque não é fashionista, pbtpbpbtpbt!), cuja mistura aparentemente aleatória de padrões remete para a indumentária colorida e ritmada das mulheres africanas:
É por isso que é inevitável ver isto de uma perspectiva algo cínica; não é, de todo, como olharmos para o legado cubista de Picasso e reconhecermos nele tanta influência africana. Picasso viu na vastidão da cultura africana pano para mangas e, décadas de modernismo depois, andamos nós a fazer mangas de pano que ressoam assim qualquer coisa de exótico, que ainda retratam o tal Outro. Se com Picasso a curiosidade e o encanto eram genuínos, a meu ver, hoje trazemos à cultura de massas estes elementos mas fazêmo-lo complexadamente, conscientes da vergonha que foi um dia termo-nos instalado acima dessa cultura local e tentado substituí-la pela nossa. Agora, parece-me, tentamos o oposto: tentamos, quanto mais não seja durante a estação Primavera-Verão, trazer um pouco da cultura do Outro para junto da nossa.
Para terminar, deixo-vos com algumas obras de um dos artistas mais espectaculares que alguma vez me passou pelos olhos e por estes meus modestos neurónios. Chama-se Yinka Shonibare (Inglês/Nigeriano) e aqui ficam algumas imagens do seu trabalho, que, a meu ver, expõe de forma infinitamente mais eficaz e eloquente todos estes assuntos que abordei tão incompetentemente neste post:


Para quem o terrível genocídio de 1994 passou ao lado (como a mim própria, que tinha na altura 9 anos), a história é mais ou menos esta:
O Ruanda é um país africano, cercado geograficamente pela Tanzania, Burundi, Uganda e pelo Congo. Foi inicialmente colonizado pela Alemanha e, mais tarde, por alturas da primeira guerra mundial, viu a sua soberania ser transferida para a Bélgica. Se os alemães foram pouco interventivos, os belgas envolveram-se mais afincadamente em aspectos como a saúde, educação e agricultura. Socialmente, vincaram severamente as diferenças entre duas supostas tribos, Hutus e Tutsis; digo 'supostas' porque só há milhares de anos atrás se poderiam discernir estes diferentes grupos de gente que, entretanto, se foi misturando num só. Isto significa que quando a soberania belga decidiu emitir documentos de identificação para a população, discernindo quem era Tutsi e quem era Hutu, o fez de uma forma completamente arbitrária: os mais altos, de pele mais clara e de nariz mais estreito eram Tutsis e os mais baixos, de pele mais escura e nariz mais largo eram Hutus.
Ou seja: o branco europeu chega lá, inventa um critério, separa um povo que se mesclou durante milénios, e dá preferência a um deles (os Tutsis, que já tinham sido beneficiados anteriormente pelos alemães), ou seja, segrega-os e antagoniza-os. Dividir para reinar, sem tirar nem pôr.
Com o crescente poder conferido às elites Tutsi, estas começam a desejar a independência da Bélgica, algo que, como aconteceu mais tarde com países como Angola e Moçambique, chamou a atenção do bloco Comunista, merecendo-lhe o seu apoio. Descontentes com este cenário, os Belgas resolvem então virar a proverbial casaca e começam a favorecer os Hutus, a suposta etnia até então preterida. Isto resulta numa vaga de violência anti-Tutsi - só assim, porque a Bélgica se livra de um conflito independentista virando o jogo para um conflito étnico e prolongando, assim, o seu domínio colonial.
A história continua, obviamente, mas para onde quero chegar basta ficar por aqui. Interessa-me muito a noção de colonização, ainda que seja um assunto com longas e portentosas barbas. Que raio de mania tem o homem branco ocidental, que chega a África, assenta arraial, e se acha com poder de decretar regras a povos nativos. Como é que isto foi sistematicamente possível?? Quem souber que me diga, por favor. Só me ocorre a possibilidade da força bélica, superior às armas comparativamente mais simples e menos letais dos nativos, pelo menos até à Russia se interessar e inundar aquilo de kalashnikovs. Mas, como dizia, é incompreensível como é que os europeus se safaram nesta apropriação sistemática de territórios alheios e lá se instalaram, literalmente, de armas e bagagens. As armas são mesmo uma merda; o poder de tirar a vida a outra pessoa parece ser, realmente, supremo. Faz lembrar o Ensaio Sobre a Cegueira, em que, quando um dos grupos de cegos se apodera de uma arma, imediatamente adquire o poder de obter tudo o que considera de valor do outro grupo: sexo, objectos pessoais e dinheiro. Enfim, é perverso demais.
Por falar em perverso, há ainda a questão 'étnica'. Esta porcaria deste critério de classificação de pessoas NUNCA trouxe nada de bom. Quanto muito, trouxe sérias vantagens a esse chico-esperto que se lembrou de classificar - olá, homem branco ocidental, é de ti que falo! O homem branco, o classificador, foi esperto quando teve a ideia de classificar porque criou a noção do Outro. E o que é que isto quer dizer? É mais ou menos simples. Suponhamos que chamamos besta a um tipo, certo? Com isto, fazemos duas coisas: definimos esse gajo como uma besta e, ao mesmo tempo, demarcamo-nos desse conceito, ou seja, ele é uma besta, ao contrário de mim, que não sou, até sou uma tipa à maneira. O mesmo se passa com o classificador, o homem branco ocidental: encontra pretos, amarelos, vermelhos; entre os pretos, vê uns mais altos, uns mais baixos, uns mais gordos e uns mais magros, e assim, o classificador classifica o que vê, isentando-se a si próprio de classe, pois o seu papel é neutro, é o de classificador. Se acham que o que acabei de dizer é um disparate de todo o tamanho, só tenho uma coisa a dizer sobre isso: chamar preto a alguém é insulto, e chamar branco a um gajo é uma perda de tempo.
O fim da picada, o cúmulo desta porra toda é o homem branco ocidental instrumentalizar essa classificação (como se fôssemos detentores de algum estatuto divino) para submeter povos aos seus interesses. Para segregar gente e criar conflitos entre ela; enfim, entretê-los a matar-se uns aos outros enquanto o colonizador aproveita a distracção causada pelas tensões internas para se instalar sem grande oposição dos nativos. Até que o povo arrebita e a coisa se agrava, como no massacre de 1994 no Ruanda e os belgas zarpam dali à força toda, sacudindo as mãos como quem diz 'o nosso trabalho aqui está feito, está na hora de ir para a nossa civilizada casinha!' Enfim, é demais!!
Hoje em dia, contudo, já não há colonização, certo? Há, já se sabe, o pós-colonialismo, em que já não se trata de açambarcar território geográfico (agora já não fixe dizer que 'Portugal é uma única nação, do Minho a Timor'), mas sim de explorar países africanos no sentido de obter o máximo proveito dos seus recursos naturais, para que as grandes multinacionais possam crescer e aumentar exponencialmente os seus lucros, isto graças a parcerias com as elites africanas, que alinham neste esquema perverso que favorece os interesses estrangeiros em detrimento dos interesses internos. Mas não era disso que eu queria falar a seguir. Creio que é perceptível o tom de auto-acusação neste meu post. Tudo isto a mim me parece vergonhoso. Lembro-me perfeitamente de, no primeiro ciclo, aprender sobre o passado imperialista de Portugal, e do tom carregado de orgulho da professora a mostrar-nos no mapa onde tínhamos chegado. E lembro-me de ter pena de como Portugal se tornara outra vez pequenino no meu tempo, quando antes o país tinha sido tão grande e se espalhava pelo mundo fora. E eu achava que naquela altura, Portugal devia ser mais forte e mais importante do que a Espanha e até do que a França.
Quando eu era pequena, ainda se glorificava esta barbárie que foi a colonização. E passaram-se muitos, demasiados anos até eu ouvir, pela primeira vez, uma voz crítica que falasse do direito de auto-determinação dos povos. - nota: "A autodeterminação dos povos é o princípio que garante a todo povo de um país o direito de se autogovernar, tomar suas escolhas sem intervenção externa, ou seja, o direito à Soberania. de um determinado povo de determinar seu próprio status político. Em outras palavras, seria o direito que o povo de determinado país tem de escolher como será legitimado o direito interno sem influência de qualquer outro país." - E que me mostrasse que, até então, nós, os portugueses (e se calhar outros europeus com passado colonial) nos comportávamos como fedelhos armados ao pingarelho, que comparam a importância do seu país pela extensão do seu território ultramarino como quem mede pilinhas. Por mim, os espanhóis e os franceses e os belgas e os ingleses que levassem a porra da bicicleta.
Acho que são atitudes apologéticas e até algo complexadas como a minha que, possivelmente, justificam, em certa medida, esta moda africanista que se vê por aí. É nestas alturas que gosto de recorrer à cultura de massas (afinal de contas, é de moda que falamos), tipo, assim por alto, a Rihanna, mais especificamente no videoclip da música 'Rude Boy'. É vê-la, natural de Barbados, vestida de padrão de zebra contra uma parede a fazer lembrar os rabiscos primitivistas de Keith Haring, cara coberta por pinturas quase tribais e colares de contas coloridas, toda ela um eco do imaginário exótico em que reflectimos as nossas impressões da cultura africana, em algumas partes já mesclada com nuances mais urbanas:
Ou mesmo, e já que falamos de moda, este exemplo de uma colecção decente da uber-chique Louis Vuitton, cheia de leopardo e contas coloridas:
Ou, ainda, em toda esta colecção recente de Dries van Noten (se nunca ouviu falar, é porque não é fashionista, pbtpbpbtpbt!), cuja mistura aparentemente aleatória de padrões remete para a indumentária colorida e ritmada das mulheres africanas:
É por isso que é inevitável ver isto de uma perspectiva algo cínica; não é, de todo, como olharmos para o legado cubista de Picasso e reconhecermos nele tanta influência africana. Picasso viu na vastidão da cultura africana pano para mangas e, décadas de modernismo depois, andamos nós a fazer mangas de pano que ressoam assim qualquer coisa de exótico, que ainda retratam o tal Outro. Se com Picasso a curiosidade e o encanto eram genuínos, a meu ver, hoje trazemos à cultura de massas estes elementos mas fazêmo-lo complexadamente, conscientes da vergonha que foi um dia termo-nos instalado acima dessa cultura local e tentado substituí-la pela nossa. Agora, parece-me, tentamos o oposto: tentamos, quanto mais não seja durante a estação Primavera-Verão, trazer um pouco da cultura do Outro para junto da nossa.
Para terminar, deixo-vos com algumas obras de um dos artistas mais espectaculares que alguma vez me passou pelos olhos e por estes meus modestos neurónios. Chama-se Yinka Shonibare (Inglês/Nigeriano) e aqui ficam algumas imagens do seu trabalho, que, a meu ver, expõe de forma infinitamente mais eficaz e eloquente todos estes assuntos que abordei tão incompetentemente neste post:
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