Friday, 2 July 2010
O Calor de Lisboa
É imenso. É tal que, mal cheguei a casa, larguei o vestido como as cobras largam pele inteira. Adoro este calor infernal, por mim era assim todos os dias do ano.
Thursday, 1 July 2010
Hotel Rwanda/A Moda do Africanismo/O Fetiche do Exótico
Tenho noção do quanto este título está infinitamente para além do pouco que sei, mas enquanto via o Hotel Rwanda (um filme que já não é novidade nenhuma) surgiram-me algumas questões que gostava de expor aqui. Este é um filme que, em certa medida, é duro de ver. Embora tenhamos a clara percepção de que não passa de uma dramatização, há sempre algo subjacente ao logo do filme que nos sugere que os factos foram mil vezes mais terríveis do que alguma vez seria possível transparecer numa mera representação.
Para quem o terrível genocídio de 1994 passou ao lado (como a mim própria, que tinha na altura 9 anos), a história é mais ou menos esta:
O Ruanda é um país africano, cercado geograficamente pela Tanzania, Burundi, Uganda e pelo Congo. Foi inicialmente colonizado pela Alemanha e, mais tarde, por alturas da primeira guerra mundial, viu a sua soberania ser transferida para a Bélgica. Se os alemães foram pouco interventivos, os belgas envolveram-se mais afincadamente em aspectos como a saúde, educação e agricultura. Socialmente, vincaram severamente as diferenças entre duas supostas tribos, Hutus e Tutsis; digo 'supostas' porque só há milhares de anos atrás se poderiam discernir estes diferentes grupos de gente que, entretanto, se foi misturando num só. Isto significa que quando a soberania belga decidiu emitir documentos de identificação para a população, discernindo quem era Tutsi e quem era Hutu, o fez de uma forma completamente arbitrária: os mais altos, de pele mais clara e de nariz mais estreito eram Tutsis e os mais baixos, de pele mais escura e nariz mais largo eram Hutus.
Ou seja: o branco europeu chega lá, inventa um critério, separa um povo que se mesclou durante milénios, e dá preferência a um deles (os Tutsis, que já tinham sido beneficiados anteriormente pelos alemães), ou seja, segrega-os e antagoniza-os. Dividir para reinar, sem tirar nem pôr.
Com o crescente poder conferido às elites Tutsi, estas começam a desejar a independência da Bélgica, algo que, como aconteceu mais tarde com países como Angola e Moçambique, chamou a atenção do bloco Comunista, merecendo-lhe o seu apoio. Descontentes com este cenário, os Belgas resolvem então virar a proverbial casaca e começam a favorecer os Hutus, a suposta etnia até então preterida. Isto resulta numa vaga de violência anti-Tutsi - só assim, porque a Bélgica se livra de um conflito independentista virando o jogo para um conflito étnico e prolongando, assim, o seu domínio colonial.
A história continua, obviamente, mas para onde quero chegar basta ficar por aqui. Interessa-me muito a noção de colonização, ainda que seja um assunto com longas e portentosas barbas. Que raio de mania tem o homem branco ocidental, que chega a África, assenta arraial, e se acha com poder de decretar regras a povos nativos. Como é que isto foi sistematicamente possível?? Quem souber que me diga, por favor. Só me ocorre a possibilidade da força bélica, superior às armas comparativamente mais simples e menos letais dos nativos, pelo menos até à Russia se interessar e inundar aquilo de kalashnikovs. Mas, como dizia, é incompreensível como é que os europeus se safaram nesta apropriação sistemática de territórios alheios e lá se instalaram, literalmente, de armas e bagagens. As armas são mesmo uma merda; o poder de tirar a vida a outra pessoa parece ser, realmente, supremo. Faz lembrar o Ensaio Sobre a Cegueira, em que, quando um dos grupos de cegos se apodera de uma arma, imediatamente adquire o poder de obter tudo o que considera de valor do outro grupo: sexo, objectos pessoais e dinheiro. Enfim, é perverso demais.
Por falar em perverso, há ainda a questão 'étnica'. Esta porcaria deste critério de classificação de pessoas NUNCA trouxe nada de bom. Quanto muito, trouxe sérias vantagens a esse chico-esperto que se lembrou de classificar - olá, homem branco ocidental, é de ti que falo! O homem branco, o classificador, foi esperto quando teve a ideia de classificar porque criou a noção do Outro. E o que é que isto quer dizer? É mais ou menos simples. Suponhamos que chamamos besta a um tipo, certo? Com isto, fazemos duas coisas: definimos esse gajo como uma besta e, ao mesmo tempo, demarcamo-nos desse conceito, ou seja, ele é uma besta, ao contrário de mim, que não sou, até sou uma tipa à maneira. O mesmo se passa com o classificador, o homem branco ocidental: encontra pretos, amarelos, vermelhos; entre os pretos, vê uns mais altos, uns mais baixos, uns mais gordos e uns mais magros, e assim, o classificador classifica o que vê, isentando-se a si próprio de classe, pois o seu papel é neutro, é o de classificador. Se acham que o que acabei de dizer é um disparate de todo o tamanho, só tenho uma coisa a dizer sobre isso: chamar preto a alguém é insulto, e chamar branco a um gajo é uma perda de tempo.
O fim da picada, o cúmulo desta porra toda é o homem branco ocidental instrumentalizar essa classificação (como se fôssemos detentores de algum estatuto divino) para submeter povos aos seus interesses. Para segregar gente e criar conflitos entre ela; enfim, entretê-los a matar-se uns aos outros enquanto o colonizador aproveita a distracção causada pelas tensões internas para se instalar sem grande oposição dos nativos. Até que o povo arrebita e a coisa se agrava, como no massacre de 1994 no Ruanda e os belgas zarpam dali à força toda, sacudindo as mãos como quem diz 'o nosso trabalho aqui está feito, está na hora de ir para a nossa civilizada casinha!' Enfim, é demais!!
Hoje em dia, contudo, já não há colonização, certo? Há, já se sabe, o pós-colonialismo, em que já não se trata de açambarcar território geográfico (agora já não fixe dizer que 'Portugal é uma única nação, do Minho a Timor'), mas sim de explorar países africanos no sentido de obter o máximo proveito dos seus recursos naturais, para que as grandes multinacionais possam crescer e aumentar exponencialmente os seus lucros, isto graças a parcerias com as elites africanas, que alinham neste esquema perverso que favorece os interesses estrangeiros em detrimento dos interesses internos. Mas não era disso que eu queria falar a seguir. Creio que é perceptível o tom de auto-acusação neste meu post. Tudo isto a mim me parece vergonhoso. Lembro-me perfeitamente de, no primeiro ciclo, aprender sobre o passado imperialista de Portugal, e do tom carregado de orgulho da professora a mostrar-nos no mapa onde tínhamos chegado. E lembro-me de ter pena de como Portugal se tornara outra vez pequenino no meu tempo, quando antes o país tinha sido tão grande e se espalhava pelo mundo fora. E eu achava que naquela altura, Portugal devia ser mais forte e mais importante do que a Espanha e até do que a França.
Quando eu era pequena, ainda se glorificava esta barbárie que foi a colonização. E passaram-se muitos, demasiados anos até eu ouvir, pela primeira vez, uma voz crítica que falasse do direito de auto-determinação dos povos. - nota: "A autodeterminação dos povos é o princípio que garante a todo povo de um país o direito de se autogovernar, tomar suas escolhas sem intervenção externa, ou seja, o direito à Soberania. de um determinado povo de determinar seu próprio status político. Em outras palavras, seria o direito que o povo de determinado país tem de escolher como será legitimado o direito interno sem influência de qualquer outro país." - E que me mostrasse que, até então, nós, os portugueses (e se calhar outros europeus com passado colonial) nos comportávamos como fedelhos armados ao pingarelho, que comparam a importância do seu país pela extensão do seu território ultramarino como quem mede pilinhas. Por mim, os espanhóis e os franceses e os belgas e os ingleses que levassem a porra da bicicleta.
Acho que são atitudes apologéticas e até algo complexadas como a minha que, possivelmente, justificam, em certa medida, esta moda africanista que se vê por aí. É nestas alturas que gosto de recorrer à cultura de massas (afinal de contas, é de moda que falamos), tipo, assim por alto, a Rihanna, mais especificamente no videoclip da música 'Rude Boy'. É vê-la, natural de Barbados, vestida de padrão de zebra contra uma parede a fazer lembrar os rabiscos primitivistas de Keith Haring, cara coberta por pinturas quase tribais e colares de contas coloridas, toda ela um eco do imaginário exótico em que reflectimos as nossas impressões da cultura africana, em algumas partes já mesclada com nuances mais urbanas:
Ou mesmo, e já que falamos de moda, este exemplo de uma colecção decente da uber-chique Louis Vuitton, cheia de leopardo e contas coloridas:
Ou, ainda, em toda esta colecção recente de Dries van Noten (se nunca ouviu falar, é porque não é fashionista, pbtpbpbtpbt!), cuja mistura aparentemente aleatória de padrões remete para a indumentária colorida e ritmada das mulheres africanas:
É por isso que é inevitável ver isto de uma perspectiva algo cínica; não é, de todo, como olharmos para o legado cubista de Picasso e reconhecermos nele tanta influência africana. Picasso viu na vastidão da cultura africana pano para mangas e, décadas de modernismo depois, andamos nós a fazer mangas de pano que ressoam assim qualquer coisa de exótico, que ainda retratam o tal Outro. Se com Picasso a curiosidade e o encanto eram genuínos, a meu ver, hoje trazemos à cultura de massas estes elementos mas fazêmo-lo complexadamente, conscientes da vergonha que foi um dia termo-nos instalado acima dessa cultura local e tentado substituí-la pela nossa. Agora, parece-me, tentamos o oposto: tentamos, quanto mais não seja durante a estação Primavera-Verão, trazer um pouco da cultura do Outro para junto da nossa.
Para terminar, deixo-vos com algumas obras de um dos artistas mais espectaculares que alguma vez me passou pelos olhos e por estes meus modestos neurónios. Chama-se Yinka Shonibare (Inglês/Nigeriano) e aqui ficam algumas imagens do seu trabalho, que, a meu ver, expõe de forma infinitamente mais eficaz e eloquente todos estes assuntos que abordei tão incompetentemente neste post:


Para quem o terrível genocídio de 1994 passou ao lado (como a mim própria, que tinha na altura 9 anos), a história é mais ou menos esta:
O Ruanda é um país africano, cercado geograficamente pela Tanzania, Burundi, Uganda e pelo Congo. Foi inicialmente colonizado pela Alemanha e, mais tarde, por alturas da primeira guerra mundial, viu a sua soberania ser transferida para a Bélgica. Se os alemães foram pouco interventivos, os belgas envolveram-se mais afincadamente em aspectos como a saúde, educação e agricultura. Socialmente, vincaram severamente as diferenças entre duas supostas tribos, Hutus e Tutsis; digo 'supostas' porque só há milhares de anos atrás se poderiam discernir estes diferentes grupos de gente que, entretanto, se foi misturando num só. Isto significa que quando a soberania belga decidiu emitir documentos de identificação para a população, discernindo quem era Tutsi e quem era Hutu, o fez de uma forma completamente arbitrária: os mais altos, de pele mais clara e de nariz mais estreito eram Tutsis e os mais baixos, de pele mais escura e nariz mais largo eram Hutus.
Ou seja: o branco europeu chega lá, inventa um critério, separa um povo que se mesclou durante milénios, e dá preferência a um deles (os Tutsis, que já tinham sido beneficiados anteriormente pelos alemães), ou seja, segrega-os e antagoniza-os. Dividir para reinar, sem tirar nem pôr.
Com o crescente poder conferido às elites Tutsi, estas começam a desejar a independência da Bélgica, algo que, como aconteceu mais tarde com países como Angola e Moçambique, chamou a atenção do bloco Comunista, merecendo-lhe o seu apoio. Descontentes com este cenário, os Belgas resolvem então virar a proverbial casaca e começam a favorecer os Hutus, a suposta etnia até então preterida. Isto resulta numa vaga de violência anti-Tutsi - só assim, porque a Bélgica se livra de um conflito independentista virando o jogo para um conflito étnico e prolongando, assim, o seu domínio colonial.
A história continua, obviamente, mas para onde quero chegar basta ficar por aqui. Interessa-me muito a noção de colonização, ainda que seja um assunto com longas e portentosas barbas. Que raio de mania tem o homem branco ocidental, que chega a África, assenta arraial, e se acha com poder de decretar regras a povos nativos. Como é que isto foi sistematicamente possível?? Quem souber que me diga, por favor. Só me ocorre a possibilidade da força bélica, superior às armas comparativamente mais simples e menos letais dos nativos, pelo menos até à Russia se interessar e inundar aquilo de kalashnikovs. Mas, como dizia, é incompreensível como é que os europeus se safaram nesta apropriação sistemática de territórios alheios e lá se instalaram, literalmente, de armas e bagagens. As armas são mesmo uma merda; o poder de tirar a vida a outra pessoa parece ser, realmente, supremo. Faz lembrar o Ensaio Sobre a Cegueira, em que, quando um dos grupos de cegos se apodera de uma arma, imediatamente adquire o poder de obter tudo o que considera de valor do outro grupo: sexo, objectos pessoais e dinheiro. Enfim, é perverso demais.
Por falar em perverso, há ainda a questão 'étnica'. Esta porcaria deste critério de classificação de pessoas NUNCA trouxe nada de bom. Quanto muito, trouxe sérias vantagens a esse chico-esperto que se lembrou de classificar - olá, homem branco ocidental, é de ti que falo! O homem branco, o classificador, foi esperto quando teve a ideia de classificar porque criou a noção do Outro. E o que é que isto quer dizer? É mais ou menos simples. Suponhamos que chamamos besta a um tipo, certo? Com isto, fazemos duas coisas: definimos esse gajo como uma besta e, ao mesmo tempo, demarcamo-nos desse conceito, ou seja, ele é uma besta, ao contrário de mim, que não sou, até sou uma tipa à maneira. O mesmo se passa com o classificador, o homem branco ocidental: encontra pretos, amarelos, vermelhos; entre os pretos, vê uns mais altos, uns mais baixos, uns mais gordos e uns mais magros, e assim, o classificador classifica o que vê, isentando-se a si próprio de classe, pois o seu papel é neutro, é o de classificador. Se acham que o que acabei de dizer é um disparate de todo o tamanho, só tenho uma coisa a dizer sobre isso: chamar preto a alguém é insulto, e chamar branco a um gajo é uma perda de tempo.
O fim da picada, o cúmulo desta porra toda é o homem branco ocidental instrumentalizar essa classificação (como se fôssemos detentores de algum estatuto divino) para submeter povos aos seus interesses. Para segregar gente e criar conflitos entre ela; enfim, entretê-los a matar-se uns aos outros enquanto o colonizador aproveita a distracção causada pelas tensões internas para se instalar sem grande oposição dos nativos. Até que o povo arrebita e a coisa se agrava, como no massacre de 1994 no Ruanda e os belgas zarpam dali à força toda, sacudindo as mãos como quem diz 'o nosso trabalho aqui está feito, está na hora de ir para a nossa civilizada casinha!' Enfim, é demais!!
Hoje em dia, contudo, já não há colonização, certo? Há, já se sabe, o pós-colonialismo, em que já não se trata de açambarcar território geográfico (agora já não fixe dizer que 'Portugal é uma única nação, do Minho a Timor'), mas sim de explorar países africanos no sentido de obter o máximo proveito dos seus recursos naturais, para que as grandes multinacionais possam crescer e aumentar exponencialmente os seus lucros, isto graças a parcerias com as elites africanas, que alinham neste esquema perverso que favorece os interesses estrangeiros em detrimento dos interesses internos. Mas não era disso que eu queria falar a seguir. Creio que é perceptível o tom de auto-acusação neste meu post. Tudo isto a mim me parece vergonhoso. Lembro-me perfeitamente de, no primeiro ciclo, aprender sobre o passado imperialista de Portugal, e do tom carregado de orgulho da professora a mostrar-nos no mapa onde tínhamos chegado. E lembro-me de ter pena de como Portugal se tornara outra vez pequenino no meu tempo, quando antes o país tinha sido tão grande e se espalhava pelo mundo fora. E eu achava que naquela altura, Portugal devia ser mais forte e mais importante do que a Espanha e até do que a França.
Quando eu era pequena, ainda se glorificava esta barbárie que foi a colonização. E passaram-se muitos, demasiados anos até eu ouvir, pela primeira vez, uma voz crítica que falasse do direito de auto-determinação dos povos. - nota: "A autodeterminação dos povos é o princípio que garante a todo povo de um país o direito de se autogovernar, tomar suas escolhas sem intervenção externa, ou seja, o direito à Soberania. de um determinado povo de determinar seu próprio status político. Em outras palavras, seria o direito que o povo de determinado país tem de escolher como será legitimado o direito interno sem influência de qualquer outro país." - E que me mostrasse que, até então, nós, os portugueses (e se calhar outros europeus com passado colonial) nos comportávamos como fedelhos armados ao pingarelho, que comparam a importância do seu país pela extensão do seu território ultramarino como quem mede pilinhas. Por mim, os espanhóis e os franceses e os belgas e os ingleses que levassem a porra da bicicleta.
Acho que são atitudes apologéticas e até algo complexadas como a minha que, possivelmente, justificam, em certa medida, esta moda africanista que se vê por aí. É nestas alturas que gosto de recorrer à cultura de massas (afinal de contas, é de moda que falamos), tipo, assim por alto, a Rihanna, mais especificamente no videoclip da música 'Rude Boy'. É vê-la, natural de Barbados, vestida de padrão de zebra contra uma parede a fazer lembrar os rabiscos primitivistas de Keith Haring, cara coberta por pinturas quase tribais e colares de contas coloridas, toda ela um eco do imaginário exótico em que reflectimos as nossas impressões da cultura africana, em algumas partes já mesclada com nuances mais urbanas:
Ou mesmo, e já que falamos de moda, este exemplo de uma colecção decente da uber-chique Louis Vuitton, cheia de leopardo e contas coloridas:
Ou, ainda, em toda esta colecção recente de Dries van Noten (se nunca ouviu falar, é porque não é fashionista, pbtpbpbtpbt!), cuja mistura aparentemente aleatória de padrões remete para a indumentária colorida e ritmada das mulheres africanas:
É por isso que é inevitável ver isto de uma perspectiva algo cínica; não é, de todo, como olharmos para o legado cubista de Picasso e reconhecermos nele tanta influência africana. Picasso viu na vastidão da cultura africana pano para mangas e, décadas de modernismo depois, andamos nós a fazer mangas de pano que ressoam assim qualquer coisa de exótico, que ainda retratam o tal Outro. Se com Picasso a curiosidade e o encanto eram genuínos, a meu ver, hoje trazemos à cultura de massas estes elementos mas fazêmo-lo complexadamente, conscientes da vergonha que foi um dia termo-nos instalado acima dessa cultura local e tentado substituí-la pela nossa. Agora, parece-me, tentamos o oposto: tentamos, quanto mais não seja durante a estação Primavera-Verão, trazer um pouco da cultura do Outro para junto da nossa.
Para terminar, deixo-vos com algumas obras de um dos artistas mais espectaculares que alguma vez me passou pelos olhos e por estes meus modestos neurónios. Chama-se Yinka Shonibare (Inglês/Nigeriano) e aqui ficam algumas imagens do seu trabalho, que, a meu ver, expõe de forma infinitamente mais eficaz e eloquente todos estes assuntos que abordei tão incompetentemente neste post:
Friday, 18 June 2010
Ficou-me atravessada
...o raio da conversa sobre a selecção francesa de futebol. Citou o Sarkozy quando disse que a França não se revia na sua selecção de futebol devido à diversidade étnica (tem africanos e árabes e até ETs, se não me engano); e que tinha, pura e simplesmente, por convicção que aquela 'selecção' de indivíduos não representava os Franceses. Eu sou fervorosamente contra este tipo de posições, por três razões muito simples:
1) Sarkozy é o presidente de TODOS os Franceses, por isso devia ser o primeiro a não apontar etnias e credos;
2) Há franceses brancos, pretos e amarelos, que adoram Jesus, Ganesh e Alá; há filhos de Argelinos e filhos de Senegaleses que nasceram em França, ali foram criados e muitas vezes nem sequer puseram um pé em solo Africano. Porque raio se há-de negar que a identidade nacional e cultural destas pessoas é Francesa?! Obviamente, muito do que somos aprendemos com os pais e restante núcleo familiar, mas a escola, as actividades de lazer, a cultura francesa não escapa certamente a estas pessoas, não? A FRANÇA É UM PAÍS DE IMIGRANTES! GET. OVER. IT.
3) É preciso uma dose obscena de lata para um país como a França se indignar com presença deste vasto número de 'estrangeiros', como se tratasse de alguma espécie de contaminação. A França teve um vasto império colonial que chegou practicamente a todos os continentes. Contaminadora foi a França, séculos a fio! A colonização foi um processo bárbaro e brutal que instrumentalizou a opressão, a violência e a escravidão de povos; quero com isto dizer que a França tem uma história repleta de invasões e barbárie. E agora o Sarkozy fica cheio de alergia por causa das comunidades de imigrantes (mesmo os de segunda e terceira geração) a infiltrar essa preciosa minoria de franceses brancos e católicos (e, já agora, devidamente munidos de boina na cabeça e baguette debaixo do braço)!
Dizia eu 'mas eles nasceram em França, cresceram em França, este é o país deles'. Não adiantou de nada. O problema continua a residir no facto de serem pretos ou muçulmanos, mesmo que não se queira admitir. Até quando vamos andar nisto?! Depois gramamos com palermas como o Deco, o português mais contrariado que aí anda, que tem tanta afinidade com Portugal como com a Gronelândia-de-Cima. Ser branco neste mundo globalizado: priceless.
EDIT: e mais - o que esta selecção pode, no máximo, não fazer, é representar as expectativas, ou o estereótipo, ou a concepção que o Sarkozy (e o meu interlocutor nesta conversa) tem e faz sobre o o que é a França. Estas expectativas não adiantam absolutamente nada, afinal a França já não é só mulheres magrinhas a fumar de boquilha e baguettes com brie nos cestos das bicicletas; a França agora é mesmo isto, um melting pot como é Londres ou Nova Iorque, é ir na rua e passar por mulheres de sari, por mercearias de bangladeshis e cafés cheios de algerianos a fumar shisha. Agora a França é assim, por isso, talvez esta selecção represente muito bem a diversidade que presentemente caracteriza a sociedade francesa.
1) Sarkozy é o presidente de TODOS os Franceses, por isso devia ser o primeiro a não apontar etnias e credos;
2) Há franceses brancos, pretos e amarelos, que adoram Jesus, Ganesh e Alá; há filhos de Argelinos e filhos de Senegaleses que nasceram em França, ali foram criados e muitas vezes nem sequer puseram um pé em solo Africano. Porque raio se há-de negar que a identidade nacional e cultural destas pessoas é Francesa?! Obviamente, muito do que somos aprendemos com os pais e restante núcleo familiar, mas a escola, as actividades de lazer, a cultura francesa não escapa certamente a estas pessoas, não? A FRANÇA É UM PAÍS DE IMIGRANTES! GET. OVER. IT.
3) É preciso uma dose obscena de lata para um país como a França se indignar com presença deste vasto número de 'estrangeiros', como se tratasse de alguma espécie de contaminação. A França teve um vasto império colonial que chegou practicamente a todos os continentes. Contaminadora foi a França, séculos a fio! A colonização foi um processo bárbaro e brutal que instrumentalizou a opressão, a violência e a escravidão de povos; quero com isto dizer que a França tem uma história repleta de invasões e barbárie. E agora o Sarkozy fica cheio de alergia por causa das comunidades de imigrantes (mesmo os de segunda e terceira geração) a infiltrar essa preciosa minoria de franceses brancos e católicos (e, já agora, devidamente munidos de boina na cabeça e baguette debaixo do braço)!
Dizia eu 'mas eles nasceram em França, cresceram em França, este é o país deles'. Não adiantou de nada. O problema continua a residir no facto de serem pretos ou muçulmanos, mesmo que não se queira admitir. Até quando vamos andar nisto?! Depois gramamos com palermas como o Deco, o português mais contrariado que aí anda, que tem tanta afinidade com Portugal como com a Gronelândia-de-Cima. Ser branco neste mundo globalizado: priceless.
EDIT: e mais - o que esta selecção pode, no máximo, não fazer, é representar as expectativas, ou o estereótipo, ou a concepção que o Sarkozy (e o meu interlocutor nesta conversa) tem e faz sobre o o que é a França. Estas expectativas não adiantam absolutamente nada, afinal a França já não é só mulheres magrinhas a fumar de boquilha e baguettes com brie nos cestos das bicicletas; a França agora é mesmo isto, um melting pot como é Londres ou Nova Iorque, é ir na rua e passar por mulheres de sari, por mercearias de bangladeshis e cafés cheios de algerianos a fumar shisha. Agora a França é assim, por isso, talvez esta selecção represente muito bem a diversidade que presentemente caracteriza a sociedade francesa.
Wednesday, 16 June 2010
A subjectividade
Tenho ganas de compreender como é que, desde os anos 90, nos viramos tanto para nós mesmos. Reparem: desde então, tornámo-nos sedentos sobre o que se passa na esfera privada de indivíduos comuns, papamos desalmadamente reality shows, talk shows pejados de confissões sórdidas, revistas cor-de-rosa, etc, etc, etc. O que é que obter informação sobre a vida dos outros acrescenta à nossa? Eu própria faço-o também (basta que vejam o meu post anterior...), mas continuo sem compreender porque é que o faço. Tenho, contudo, as minhas suspeitas:
a) Já ninguém acredita em Deus nem no Pai Natal;
É possível que tenhamos chegado a um extremo miserável do que foi outrora o humanismo; tudo o que está à nossa volta, bom ou mau, foi construído graças à visão e ciência do Homem, logo, está cada vez mais difícil encontrar alguém que se veja como um elemento passivo num desígnio divino favorável. Assim sendo, e já que afinal os heróis somos nós todos, é possível que vejamos em pessoas iguais a nós (e às vezes piores ou muito piores que nós - sim, Marco do Big Brother, estou a falar também de ti) uma espécie de referência.
b) Procrastinação ou a Arte de Adiar Fazer o Que Tem Que Ser Feito;
Por outras palavras, 'marxismo'. Diz a teoria Marxista que o entretenimento serve para nos toldar a razão, para nos emudecer perante a opressão do capitalismo. Não fazendo caso do radicalismo do Sr. Bigodes, acho que os Media demonstram ser muito conhecedores do consumidor; muitas vezes farto dos problemas do trabalho, chega a casa estafado de pensar em orçamentos, em facturas, em notas de encomenda e com a cabeça ainda a latejar da última rabecada do chefe, por isso, que melhor consolo haverá do que ver o programa mais estúpido que aparecer? Ou seja, o consumidor/espectador dificilmente chega a casa e procura informação (para dados objectivos, comparar audiências da TVI e RTP2), quer é esparramar-se ao comprido e ver a senhora que nasceu sem braços e sem pernas no programa da Oprah. O extraordinário, suponho, em vez de nos inspirar, confronta-nos com a nossa própria mediocridade, da mesma forma que o ordinário estabelece uma ideia de normalidade na qual nos encaixamos facilmente - isto assegura-nos que tudo vai bem com a nossa vidinha. Ou seja: os senhores que puxam os cordelinhos nos Media são mesmo espertos e topam-nos a milhas: com estes programas e estas revistas, tratam-nos como bebés pequeninos: põem-nos à frente de um espelho e nós ficamos rendidos, horas a fio, a brincar com a (nossa) imagem reflectida à nossa frente.
Isto tudo porquê?
Isto tudo porque hoje fui comprar uns cremes (quando me pareceu que o meu Clinique para a cara estava a esvair-se de dia para dia, fiquei a saber que o que faltava no boião estava na cara do namorido), e enquanto procurava o que queria, fui interpelada por uma funcionária da loja a oferecer-me uma amostra de um anti-celulítico, acompanhado das devidas instruções de uso "passa nas pernocas, esfrega no rabiosque". Até aqui, no problem, só foi chato é que hoje acordei com tal bravado que me fiz à rua de vestido curto, num exercício de auto-aceitação e com esperanças de apanhar uma corzinha. E depois vem ela sugerir que eu tenho um problema ao oferecer-me uma solução para ele. Eu preciso é de um milagre, filha! E já agora, se não for muito inconveniente, que não me lixem a cabeça por causa das 'pernocas' e do 'rabiosque'. Mas, como dizia, isto tudo porque, considerando este espisódio, me questionei sobre qual seria, realmente, o interesse de falar sobre isto no blog. Tipo, who cares? Possivelmente, absolutamente ninguém, mas a verdade é que um blog é um espaço de subjectividade (logo, de voyeurismo?). Por isso é que é legítimo vir para aqui dizer que hoje passei pelo recreio do infantário na Àlvares Cabral e dois meninos, dois mini-snipers de bata aos quadradinhos, me atingiram a tiro invisível com as suas mãozinhas em posição de pistola, e que depois, tendo sobrevivido a tal ataque, vi aquela anedota daquele jogo de futebol num tasco no Bairro Alto.
Um dia destes, e ainda a propos deste assunto, falo-vos de um artista que eu adoro, adoro, adoro, que se chama Richard Billingham. Para já, deixo-vos para aqui uma imagem do seu livro 'Ray's A Laugh' (que está ali na minha estante, o que largamente contribui para a minha felicidade), para irem pensando sobre o assunto, se vos der para isso.
a) Já ninguém acredita em Deus nem no Pai Natal;
É possível que tenhamos chegado a um extremo miserável do que foi outrora o humanismo; tudo o que está à nossa volta, bom ou mau, foi construído graças à visão e ciência do Homem, logo, está cada vez mais difícil encontrar alguém que se veja como um elemento passivo num desígnio divino favorável. Assim sendo, e já que afinal os heróis somos nós todos, é possível que vejamos em pessoas iguais a nós (e às vezes piores ou muito piores que nós - sim, Marco do Big Brother, estou a falar também de ti) uma espécie de referência.
b) Procrastinação ou a Arte de Adiar Fazer o Que Tem Que Ser Feito;
Por outras palavras, 'marxismo'. Diz a teoria Marxista que o entretenimento serve para nos toldar a razão, para nos emudecer perante a opressão do capitalismo. Não fazendo caso do radicalismo do Sr. Bigodes, acho que os Media demonstram ser muito conhecedores do consumidor; muitas vezes farto dos problemas do trabalho, chega a casa estafado de pensar em orçamentos, em facturas, em notas de encomenda e com a cabeça ainda a latejar da última rabecada do chefe, por isso, que melhor consolo haverá do que ver o programa mais estúpido que aparecer? Ou seja, o consumidor/espectador dificilmente chega a casa e procura informação (para dados objectivos, comparar audiências da TVI e RTP2), quer é esparramar-se ao comprido e ver a senhora que nasceu sem braços e sem pernas no programa da Oprah. O extraordinário, suponho, em vez de nos inspirar, confronta-nos com a nossa própria mediocridade, da mesma forma que o ordinário estabelece uma ideia de normalidade na qual nos encaixamos facilmente - isto assegura-nos que tudo vai bem com a nossa vidinha. Ou seja: os senhores que puxam os cordelinhos nos Media são mesmo espertos e topam-nos a milhas: com estes programas e estas revistas, tratam-nos como bebés pequeninos: põem-nos à frente de um espelho e nós ficamos rendidos, horas a fio, a brincar com a (nossa) imagem reflectida à nossa frente.
Isto tudo porquê?
Isto tudo porque hoje fui comprar uns cremes (quando me pareceu que o meu Clinique para a cara estava a esvair-se de dia para dia, fiquei a saber que o que faltava no boião estava na cara do namorido), e enquanto procurava o que queria, fui interpelada por uma funcionária da loja a oferecer-me uma amostra de um anti-celulítico, acompanhado das devidas instruções de uso "passa nas pernocas, esfrega no rabiosque". Até aqui, no problem, só foi chato é que hoje acordei com tal bravado que me fiz à rua de vestido curto, num exercício de auto-aceitação e com esperanças de apanhar uma corzinha. E depois vem ela sugerir que eu tenho um problema ao oferecer-me uma solução para ele. Eu preciso é de um milagre, filha! E já agora, se não for muito inconveniente, que não me lixem a cabeça por causa das 'pernocas' e do 'rabiosque'. Mas, como dizia, isto tudo porque, considerando este espisódio, me questionei sobre qual seria, realmente, o interesse de falar sobre isto no blog. Tipo, who cares? Possivelmente, absolutamente ninguém, mas a verdade é que um blog é um espaço de subjectividade (logo, de voyeurismo?). Por isso é que é legítimo vir para aqui dizer que hoje passei pelo recreio do infantário na Àlvares Cabral e dois meninos, dois mini-snipers de bata aos quadradinhos, me atingiram a tiro invisível com as suas mãozinhas em posição de pistola, e que depois, tendo sobrevivido a tal ataque, vi aquela anedota daquele jogo de futebol num tasco no Bairro Alto.
Um dia destes, e ainda a propos deste assunto, falo-vos de um artista que eu adoro, adoro, adoro, que se chama Richard Billingham. Para já, deixo-vos para aqui uma imagem do seu livro 'Ray's A Laugh' (que está ali na minha estante, o que largamente contribui para a minha felicidade), para irem pensando sobre o assunto, se vos der para isso.
Wednesday, 9 June 2010
Blogs e assim
Confesso, tenho um desejo ardente de dizer duas ou três coisas sobre as o que ando a ler. Há pouco mais de um ano atrás carregava uma respeitável lista de livros atrás de mim - ele era Homi K. Bhabha, ele era Gerardo Mosquera, ela era Theodor Adorno, enfim, uma panóplia de nomes que qualquer estudante de arte contemporânea tem sempre na ponta da língua e que cita sem parar e a torto e a direito.
Mais recentemente, contudo (assim tipo ontem), dei-me conta que já não são bem estes nomes ilustres que me têm passado à frente dos olhinhos. Tenho lido muito lixo. Ou então não é lixo, são só coisas fáceis, e que leio na internet; não tenho que pensar, não aprendo nada com isso, apenas gosto. Tipo isto:
A Pipoca Mais Doce (http://apipocamaisdoce.blogspot.com) - Embirro com o nome do blog, que me parece um bocadinho dondoca quando, a meu ver (eu sei que não falta quem discorde), o conteúdo do blog é super engraçado e claramente bem escrito (nada como este, que eu não sou jornalista). Obviamente, é um conteúdo quase inteiramente orientado para um público feminino que perde umas horas por dia a pensar em/fazer coisas de gaja, tipo comprar sapatos (ou à falta de capital, pensar em comprar sapatos ou mesmo babar copiosamente para cima da montra da Fashion Clinic com um ar sonhador) e vernizes ou comentar a aparência das outras, por exemplo. Há também duas rubricas engraçadas, uma em que ela fala dos preparativos para o casório (ideia a que geralmente sou alérgica e que, vindo de qualquer outra pessoa me aborrece de morte) e, principalmente, o hate mail que ela recebe, do mais ressabiado que há. É lindo! E tudo isto, como já disse, muito bem escrito, com muita graça e com um tom irónico que salva todo este blog da pura imbecilidade. Eu gosto!
Karla's Closet (www.karlascloset.com) - Mais um blog de moda de uma miúda californiana muito cheia de oomph. Pouco expansiva, não diz muito, mas expressa-se muito nas fotografias onde, na maior parte das vezes, enverga belíssimas selecções vintage. Tem um ar de outros tempos que eu adoro e, em síntese, muita, muita classe. É, tal como a blogger seguinte, uma lembrança de que há um elemento-chave na moda que é também importantíssimo nas artes visuais: a composição. (Hi Karla, if for some reason you bump into this text - since it's got your name on it - and find only a bunch of portuguese gibberish, I'm only using your photo and mentioning you because I'm telling people you're awesome. Hope you don't mind, but if you do, I'm happy to edit this.)
Sea of Shoes (seaofshoes.typepad.com) - Uma texana de 16 ou 17 anos com um bom gosto irrepreensível e muito, muito criativa. No início o tema do blog focava-se mais nos sapatos (alguém que me explique esta obssessão da qual padecemos todas, por favor, fundamentado por teoria freudiana, ou assim!) mas agora aborda mesmo o conjunto todo. Digamos só que, enquanto a Pipoca tem um orçamento de 100 euros por mês para gastar em chaussures, aqui a senhorita Jane Aldridge vai para a escola em cima de uns Givenchy ou de uns Marni como se nada fosse.
Como dizia acima, em termos de composição é uma mocinha do mais competente que há e desde o primeiro momento em que a vi/li, pareceu-me que se trata de uma digna sucessora de uma Anna Wintour. Pinta a jorrar por todos os lados. E uma colecção de sapatos de morrer. Tipo estes Yves Saint Laurent Cage Sandals. *cai para o lado* (Hi Jane, if for some reason you bump into this text - since it's got your name on it - and find only a bunch of portuguese gibberish, I'm only using your photo and mentioning you because I'm telling people you're awesome. Hope you don't mind, but if you do, I'm happy to edit this.)
Cupcakes And Cashmere (cupcakesandcashmere.com) - Mais uma ianque, desta feita de S. Francisco, mas exportada para Los Angeles. Gira todos os dias. O título do blog dá boas pistas sobre o seu conteúdo - moda e comida, coincidentemente duas das minhas coisas preferidas - e não é difícil constatar que ela é muito boa em ambas as coisas. Diz que o truque é cada um encontrar as suas paixões. (Hi Hilary, if for some reason you bump into this text - since it's got your name on it - and find only a bunch of portuguese gibberish, I'm only using your photo and mentioning you because I'm telling people you're awesome. Hope you don't mind, but if you do, I'm happy to edit this.)
The Sartorialist (http://thesartorialist.blogspot.com/) - Vão lá e vejam por vocês mesmos porque é que este blog é tão (o mais!) especial dentro deste género. É que, pela primeira vez, vemos que a inspiração e a criatividade estão nas ruas, não na snobeira dos ateliers.
E pronto, já vêm, que tenho trocado o sagrado pelo profano. Ontem, quem sabe se por motivo de culpa ou mesmo saudades, lá agarrei na Teoria Estética do Adorno, mas foi como quem já se sente mal por não ir ao ginásio há 2 meses e por isso faz 6 ou 7 flexões no tapete da sala. O que é certo é que eu gosto de ler estes blogs e, principalmente, de ver estes blogs. E à medida que vou pensando no rumo que quero dar a este, mais penso que nada me obriga a ser coerente ou a ter um tema concreto. 'It's my blog and I'll write what I want to.'
Mais recentemente, contudo (assim tipo ontem), dei-me conta que já não são bem estes nomes ilustres que me têm passado à frente dos olhinhos. Tenho lido muito lixo. Ou então não é lixo, são só coisas fáceis, e que leio na internet; não tenho que pensar, não aprendo nada com isso, apenas gosto. Tipo isto:
A Pipoca Mais Doce (http://apipocamaisdoce.blogspot.com) - Embirro com o nome do blog, que me parece um bocadinho dondoca quando, a meu ver (eu sei que não falta quem discorde), o conteúdo do blog é super engraçado e claramente bem escrito (nada como este, que eu não sou jornalista). Obviamente, é um conteúdo quase inteiramente orientado para um público feminino que perde umas horas por dia a pensar em/fazer coisas de gaja, tipo comprar sapatos (ou à falta de capital, pensar em comprar sapatos ou mesmo babar copiosamente para cima da montra da Fashion Clinic com um ar sonhador) e vernizes ou comentar a aparência das outras, por exemplo. Há também duas rubricas engraçadas, uma em que ela fala dos preparativos para o casório (ideia a que geralmente sou alérgica e que, vindo de qualquer outra pessoa me aborrece de morte) e, principalmente, o hate mail que ela recebe, do mais ressabiado que há. É lindo! E tudo isto, como já disse, muito bem escrito, com muita graça e com um tom irónico que salva todo este blog da pura imbecilidade. Eu gosto!
Karla's Closet (www.karlascloset.com) - Mais um blog de moda de uma miúda californiana muito cheia de oomph. Pouco expansiva, não diz muito, mas expressa-se muito nas fotografias onde, na maior parte das vezes, enverga belíssimas selecções vintage. Tem um ar de outros tempos que eu adoro e, em síntese, muita, muita classe. É, tal como a blogger seguinte, uma lembrança de que há um elemento-chave na moda que é também importantíssimo nas artes visuais: a composição. (Hi Karla, if for some reason you bump into this text - since it's got your name on it - and find only a bunch of portuguese gibberish, I'm only using your photo and mentioning you because I'm telling people you're awesome. Hope you don't mind, but if you do, I'm happy to edit this.)
Sea of Shoes (seaofshoes.typepad.com) - Uma texana de 16 ou 17 anos com um bom gosto irrepreensível e muito, muito criativa. No início o tema do blog focava-se mais nos sapatos (alguém que me explique esta obssessão da qual padecemos todas, por favor, fundamentado por teoria freudiana, ou assim!) mas agora aborda mesmo o conjunto todo. Digamos só que, enquanto a Pipoca tem um orçamento de 100 euros por mês para gastar em chaussures, aqui a senhorita Jane Aldridge vai para a escola em cima de uns Givenchy ou de uns Marni como se nada fosse.
Como dizia acima, em termos de composição é uma mocinha do mais competente que há e desde o primeiro momento em que a vi/li, pareceu-me que se trata de uma digna sucessora de uma Anna Wintour. Pinta a jorrar por todos os lados. E uma colecção de sapatos de morrer. Tipo estes Yves Saint Laurent Cage Sandals. *cai para o lado* (Hi Jane, if for some reason you bump into this text - since it's got your name on it - and find only a bunch of portuguese gibberish, I'm only using your photo and mentioning you because I'm telling people you're awesome. Hope you don't mind, but if you do, I'm happy to edit this.)
Cupcakes And Cashmere (cupcakesandcashmere.com) - Mais uma ianque, desta feita de S. Francisco, mas exportada para Los Angeles. Gira todos os dias. O título do blog dá boas pistas sobre o seu conteúdo - moda e comida, coincidentemente duas das minhas coisas preferidas - e não é difícil constatar que ela é muito boa em ambas as coisas. Diz que o truque é cada um encontrar as suas paixões. (Hi Hilary, if for some reason you bump into this text - since it's got your name on it - and find only a bunch of portuguese gibberish, I'm only using your photo and mentioning you because I'm telling people you're awesome. Hope you don't mind, but if you do, I'm happy to edit this.)
The Sartorialist (http://thesartorialist.blogspot.com/) - Vão lá e vejam por vocês mesmos porque é que este blog é tão (o mais!) especial dentro deste género. É que, pela primeira vez, vemos que a inspiração e a criatividade estão nas ruas, não na snobeira dos ateliers.
E pronto, já vêm, que tenho trocado o sagrado pelo profano. Ontem, quem sabe se por motivo de culpa ou mesmo saudades, lá agarrei na Teoria Estética do Adorno, mas foi como quem já se sente mal por não ir ao ginásio há 2 meses e por isso faz 6 ou 7 flexões no tapete da sala. O que é certo é que eu gosto de ler estes blogs e, principalmente, de ver estes blogs. E à medida que vou pensando no rumo que quero dar a este, mais penso que nada me obriga a ser coerente ou a ter um tema concreto. 'It's my blog and I'll write what I want to.'
Saturday, 8 May 2010
I LOVE YOU, PHILLIP MORRIS
Quem sabia deste tal Phillip Morris? Um homem que,durante alguns anos da sua vida, tentou encaixar-se no modelo clássico do marido/pai de família/polícia cumpridor e que - assim, de repente - descobre que afinal é homossexual. E gosta. E em consequência de um grave acidente de viação, tem a derradeira epifania e resolve aceitar-se como tal, encontrando mesmo um parceiro bronzeado e deslumbrante (que no filme é Rodrigo Santoro, que conhecemos como galã das novelas; ou então como a Lady Di, em Carandiru).
A parte problemática começa aqui. Há dois aspectos no filme, que disputam a nossa atenção até ao fim; e digo-vos, nem sempre vence a melhor. Esses dois aspectos, que no filme funcionam em paralelo (e que, a meu ver, deviam estar entrosados) são a) a representação da homossexualidade e b) o carácter do protagonista Steven Russell, que no filme é Jim Carrey.
A questão do conflito entre estes dois aspectos não é óbvia. Foi preciso uma breve cena de sexo entre dois homens (Steve e um anónimo) e mais alguns beijos homossexuais para um número considerável de pessoas abandonar a sala. Eu, convicta progressista, ri-me deles e pensei 'pff, conservadores! Se fosse o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet deixavam-se ficar. Que púdicos, que reaccionários!' E ao comentar isto mesmo com o namorado, geralmente menos progressista do que eu, ele sai-se com esta: talvez estejam a sair por causa de o filme ser uma merda.
E foi assim que me dei conta dos tais dois aspectos que referi há bocado. Ou seja, eu achei que todo o filme era uma representação da homossexualidade e esqueci-me completamente do enredo. Foi também assim que percebi que a estratégia do realizador (cujo nome não fixei) não foi a melhor ao enfatizar tanto a sexualidade do personagem principal, e ao confrontar tantas e repetidas vezes o espectador com os beijos, o sexo, as manifestações de afecto entre dois homens, o realizador torna a história meramente periférica. O que não deixa de ser curioso por duas razões: a primeira, porque a homossexualidade ainda possui um considerável shock value e, em segundo lugar, implica que há algo de profundamente subversivo neste filme, pois faz-nos questionar o modelo James Bond, com os seus truques e charmes e enrolanços com as mulheres mais bonitas do planeta. Só que neste caso o Steven Russel bate os James Bonds e os McGuyvers aos pontos e enfia-os num bolsinho: a história é verídica.
Como li há dias, 'mais depressa a vida real se parece com a ficção do que a ficção se parece com a vida real'. Damn right.
A história é, afinal, a parte mais fascinante e (infelizmente para todos) só nos apercebemos realmente disso no fim, quando ficamos a saber que, por fazer de todos parvos (o governador do estado do Texas por ter desempenhado funções de advogado sem qualificações, o presidente da imensa multinacional onde conseguiu chegar a CFO, entre inúmeros esquemas inteligentíssimos que pôs em prática para obter os carros, os casarões e o olhar embevecido do parceiro) o expedito impostor Steven Russell levou com uma pena perpétua.
Foi, por isso, com alguma pena, que vi o filme a tomar contornos de comédia, a encorporar mesmo alguns clichés homossexuais. Parece-me, a mim, que não percebo nada, que é um caminho fácil de tomar para chegar ao coração do espectador. Contudo, meia volta, o vigarista par excellence lá fazia mais uma das suas brilhantes artimanhas para se desenvencilhar dos problemas causados pela asneira anterior, e lá a história ganhava terreno.
Posto isto, concluí que não é um excelente filme. Apesar de tudo, não consegui deixar de sentir alguma satisfação ao ver representado um estilo de vida diferente do que aqui consideramos normal. Sempre achei que a sensação de estranheza é algo contra o qual devemos lutar sempre; se, em crianças, é uma defesa, na vida adulta é algo que nos torna cegos, surdos e mudos em relação ao mundo. É preciso confrontarmo-nos com coisas novas, para um dia deixarmos de lhes resistir e assim podermos co-existir sem problemas - como uma espécie de sistema imunitário. Não digo com isto que devemos necessariamente mudar alguma coisa em nós para sermos nós também alternativos; digo apenas que devemos reconhecer outras coisas e reconhecer a essas mesmas coisas um direito igual a existirem, desde que não prejudiquem ninguém.
O Jim Carrey prejudica alguém por estar aos beijos com o Ewan McGregor? Também acho que não. Contudo, aqueles espectadores que sairam da sala desciam aqueles degraus vincando pura convicção. Tipo, 'NEM MAIS UM MINUTO DESTA MERDA.' E, lá está, assumi eu, que o faziam por repulsa por (aquela) representação da homossexualidade (sublinho a palavra 'aquela', porque a homossexualidade, como qualquer outro aspecto da vida, tem infinitas possibilidades de representação e aquela não era mais do que uma perpectiva sobre o assunto). Mas, depois, no carro, enquanto falávamos sobre este tal conflito, concluímos que só podiam ter saído por causa dos beijos e dos amassos; se fosse porque o filme não prestava, pensariam nos 6 euros que pagaram e deixavam-se ficar.
A parte problemática começa aqui. Há dois aspectos no filme, que disputam a nossa atenção até ao fim; e digo-vos, nem sempre vence a melhor. Esses dois aspectos, que no filme funcionam em paralelo (e que, a meu ver, deviam estar entrosados) são a) a representação da homossexualidade e b) o carácter do protagonista Steven Russell, que no filme é Jim Carrey.
A questão do conflito entre estes dois aspectos não é óbvia. Foi preciso uma breve cena de sexo entre dois homens (Steve e um anónimo) e mais alguns beijos homossexuais para um número considerável de pessoas abandonar a sala. Eu, convicta progressista, ri-me deles e pensei 'pff, conservadores! Se fosse o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet deixavam-se ficar. Que púdicos, que reaccionários!' E ao comentar isto mesmo com o namorado, geralmente menos progressista do que eu, ele sai-se com esta: talvez estejam a sair por causa de o filme ser uma merda.
E foi assim que me dei conta dos tais dois aspectos que referi há bocado. Ou seja, eu achei que todo o filme era uma representação da homossexualidade e esqueci-me completamente do enredo. Foi também assim que percebi que a estratégia do realizador (cujo nome não fixei) não foi a melhor ao enfatizar tanto a sexualidade do personagem principal, e ao confrontar tantas e repetidas vezes o espectador com os beijos, o sexo, as manifestações de afecto entre dois homens, o realizador torna a história meramente periférica. O que não deixa de ser curioso por duas razões: a primeira, porque a homossexualidade ainda possui um considerável shock value e, em segundo lugar, implica que há algo de profundamente subversivo neste filme, pois faz-nos questionar o modelo James Bond, com os seus truques e charmes e enrolanços com as mulheres mais bonitas do planeta. Só que neste caso o Steven Russel bate os James Bonds e os McGuyvers aos pontos e enfia-os num bolsinho: a história é verídica.
Como li há dias, 'mais depressa a vida real se parece com a ficção do que a ficção se parece com a vida real'. Damn right.
A história é, afinal, a parte mais fascinante e (infelizmente para todos) só nos apercebemos realmente disso no fim, quando ficamos a saber que, por fazer de todos parvos (o governador do estado do Texas por ter desempenhado funções de advogado sem qualificações, o presidente da imensa multinacional onde conseguiu chegar a CFO, entre inúmeros esquemas inteligentíssimos que pôs em prática para obter os carros, os casarões e o olhar embevecido do parceiro) o expedito impostor Steven Russell levou com uma pena perpétua.
Foi, por isso, com alguma pena, que vi o filme a tomar contornos de comédia, a encorporar mesmo alguns clichés homossexuais. Parece-me, a mim, que não percebo nada, que é um caminho fácil de tomar para chegar ao coração do espectador. Contudo, meia volta, o vigarista par excellence lá fazia mais uma das suas brilhantes artimanhas para se desenvencilhar dos problemas causados pela asneira anterior, e lá a história ganhava terreno.
Posto isto, concluí que não é um excelente filme. Apesar de tudo, não consegui deixar de sentir alguma satisfação ao ver representado um estilo de vida diferente do que aqui consideramos normal. Sempre achei que a sensação de estranheza é algo contra o qual devemos lutar sempre; se, em crianças, é uma defesa, na vida adulta é algo que nos torna cegos, surdos e mudos em relação ao mundo. É preciso confrontarmo-nos com coisas novas, para um dia deixarmos de lhes resistir e assim podermos co-existir sem problemas - como uma espécie de sistema imunitário. Não digo com isto que devemos necessariamente mudar alguma coisa em nós para sermos nós também alternativos; digo apenas que devemos reconhecer outras coisas e reconhecer a essas mesmas coisas um direito igual a existirem, desde que não prejudiquem ninguém.
O Jim Carrey prejudica alguém por estar aos beijos com o Ewan McGregor? Também acho que não. Contudo, aqueles espectadores que sairam da sala desciam aqueles degraus vincando pura convicção. Tipo, 'NEM MAIS UM MINUTO DESTA MERDA.' E, lá está, assumi eu, que o faziam por repulsa por (aquela) representação da homossexualidade (sublinho a palavra 'aquela', porque a homossexualidade, como qualquer outro aspecto da vida, tem infinitas possibilidades de representação e aquela não era mais do que uma perpectiva sobre o assunto). Mas, depois, no carro, enquanto falávamos sobre este tal conflito, concluímos que só podiam ter saído por causa dos beijos e dos amassos; se fosse porque o filme não prestava, pensariam nos 6 euros que pagaram e deixavam-se ficar.
Wednesday, 5 May 2010
No entanto, ela move-se - Parte 1

Desde 2007, este blogue tem estado à deriva por esse cosmos cibernético, à espera que, num momento inspirado ou de procrastinação, eu me dignasse a deitar para aqui umas linhas. Não o fiz porque não tinha nada para dizer.
Não que tenha progredido muito desde aí - ainda não tenho uma mensagem urgente, mas agora começo a pensar que 'vai do começar'. Decidi começar por explicar o título do blog, que creio ser uma expressão brilhante, no seu contexto. Ouvi a história pela primeira vez há muitos anos, contada pelo meu pai, admirador das ideias e do progresso científico: Galileu Galilei, pai do heliocentrismo, foi levado a julgamento pelo Santo Ofício em consequência da absoluta heresia dessa mesma teoria científica. Quando já se tinha estabelecido e validado que a Terra tinha uma localização fixa (diz a Wikipedia que foi graças a Ptolomeu), a descoberta caiu mal ao Papa da altura, que decidiu manter Galileu em prisão domiciliária até ao fim da sua vida. A melhor parte da história é, infelizmente, uma lenda, mas de todo modo é genial - diz-se que, no julgamento, depois de ter desmentido o heliocentrismo, Galileu declarou discretamente 'No entanto, ela move-se!'
Bem ou mal contada, esta história sempre me fascinou por duas razões: porque expõe as implicações de ter razão antes do tempo e porque a convicção do Galileu mantém-se inalterada pela obrigação de ter que agir e que se manifestar em conformidade com o resto das pessoas.
Há um artista plástico português cuja obra admiro muito, chamado João Pedro Vale. Aqui vai um excerto da minha tese de mestrado, em que falo sobre a sua obra 'However, It Moves', traduzido do original Inglês, em cima do joelho:
'Hoje em dia, a colonização é uma mera recordação remota que gera pouco ou nenhum debate em Portugal. No passado, Salazar insistia em manter o seu domínio sobre as colónias ultramarinas - isto, no século XX, enquanto outros colonizadores Europeus moviam esforços de forma a remover a sua presença do continente Africano. Persistem ainda vários monumentos ao longo de algumas cidades costeiras portuguesas, celebrando (ainda?) as descobertas e os seus protagonistas.
Visualmente dominantes e em estilo militar, esses monumentos parecem reavivados em 'However It Moves!, 2007 . Como uma figura híbrida e mitológica, esta escultura de sal parece descender do cruzamento entre um bolo de noiva e uma fortaleza militar. - em suma, uma verdadeira antítese, celebração e conflito num só objecto. Muito frequentemente, no trabalho de JPV, o espectador é bombardeado por uma percepção ambígua da escultura, algo que só consigo comparar com aquelas imagens planas, a preto e branco, em que a àrea em branco descreve um objecto e a àrea a preto descreve um objecto diferente, sendo impossível ver ambos em simultâneo.
Se escolhermos ignorar a superfície decorada e imaculadamente branca, somos confrontados com um objecto impenetrável e hermético, com canhões ameaçadoramente apontados a nós; por outro lado, se optarmos por observar a superfície adocicada deste objecto de dois andares, imediatamente nos salta à mente o típico bolo de noiva, coberto de açúcar em montinhos decorativos e numa configuração de dois andares, para chegar para toda a gente.
Uma das possibilidades de leitura desta obra pode, creio eu, referir-se às estratégias de expansão das velhas monarquias Europeias, em que os países eram conquistados e as suas fronteiras (re)definidas de duas formas: ou pela guerra ou pelo casamento dos soberanos.
Para além disso, pode dizer-se que, olhando para trás, o passado português no ultramar resume-se agora nestes monumentos celebratórios despropositados e meramente decorativos. O curioso título desta obra ecoa ainda a lenda que narra o episódio em que o astrónomo italiano Galileu Galilei é obrigado a abandonar e a negar a sua teoria do heliocentrismo. Ameaçado pela pena de morte (e sabe-se que os métodos da Inquisição não eram meigos), Galileu despacha-se a negar o seu modelo científico, sem deixar, contudo esta nota: 'no entanto, ela move-se'. Esta afirmação pode, assim, funcionar como uma subtil afirmação da uma percepção alternativa à versão oficial das coisas, um ícone de perseverança em relação a algo que desafia o que está geralmente estabelecido, uma declaração sobre a imparável mobilidade das coisas.'
Acho esta ideia muitíssimo interessante. Quanto do que achamos que sabemos não passa de uma versão? A História, por exemplo, é a maior versão de todas, é a voz dos que a contaram, e os que a contaram são um grupo muito restrito composto por, geralmente, homens, brancos, heterossexuais, Cristãos e ocidentais. Num mundo tão grande e tão vasto, porque é que damos ouvidos só a este grupo? Porque lhes é permitido 'universalizar' as suas perspectivas? O que é feito da voz da maioria?
Será que a maioria não é uma questão numérica? Será ela, na verdade, uma questão de influência, uma questão de elite, logo, uma questão de poder? Não sei, mas acho importante pensar nisto.
Fica, por enquanto, por aqui a primeira 'esculpidela' neste blog ainda amorfo. Acabo só com uma última observação sobre o nome Galileu Galilei, para mim o melhor nome de todos; tenciono, um dia, quem sabe, ter um filho a quem possa chamar Rodrigo para que, tal como o mítico astro-físico, possa apresentar-se com uma sonante aliteração, isto é, Rodrigo Rodrigues.
Quem sabe se por alturas da próxima geração seja menos perigoso ter-se razão antes do tempo, não vá o meu futuro rebento vir a ser algum prodígio.
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